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Os
partidos portugueses e a construção europeia (I)
Observatório de Relações Exteriores

O Observatório de Relações Exteriores dirigiu aos partidos políticos
com representação parlamentar um questionário sobre os temas fundamentais
da construção europeia. De forma abreviada, sintetizamos aqui as respostas
obtidas (com excepção do Partido Ecologista Os Verdes, cujas posições
não foi possível receber). As mesmas questões foram colocadas a alguns
eurodeputados portugueses e das suas respostas transcrevemos uma ou
outra citação. O conjunto do material reunido será editado em publicação
própria.
Informação Complementar
Modelo Institucional Europeu
A Futura Arquitectura Política da União
BE
Associação
Voluntária de Estados: Sendo contra a criação de um Estado Federal, o
BE defende para a União Europeia (UE) um documento "refundacional",
base de uma associação voluntária de Estados soberanos e democráticos.
PCP
Relação
Intergovernamental: A UE é e deverá continuar a ser uma relação entre
Estados independentes e soberanos centrada no seu peso individual tendencialmente
igualitário, onde não há espaço para as cooperações reforçadas, ou seja,
para uma política de integração de geometria variável.
PSD
Construção Sui
Generis: Estando a via intergovernamental cada vez mais afastada
do projecto europeu e não tendo uma solução federal ou confederal para
a UE, o PSD propõe fugir às soluções tradicionais e encontrar uma solução sui
generis.
PS
Arquitectura
Mista: Proposta de uma União Política de Estados-Nação com características
federais, ou seja, com estruturas federais de carácter político com capacidade
de coordenação das políticas económicas e sociais, mas onde os Estados-Nação
continuem representados através dos seus Governos na estrutura decisória
da União, o Conselho.
PP
Articulação
Intergovernamental: O PP defende um modelo assente na igualdade jurídica
dos Estados contratantes e no respeito pela vontade das Nações, ou seja,
uma arquitectura política que assente fundamentalmente nos Conselhos
de Ministros e na articulação entre Governos.
Grau de Integração Política a Adoptar
BE
Diferentes
Ritmos de Integração: A Europa precisa de um documento "refundacional",
um pilar único de grandes princípios e valores que enformarão depois
políticas com diferentes ritmos de integração, podendo mesmo existir
políticas que não sejam seguidas por parte dos países.
PCP
Manutenção
da Base Intergovernamental: Independentemente da evolução sofrida pela
UE, o elemento político deverá sempre manter-se ao nível da relação intergovernamental.
PSD
Dependente
do Cenário: O grau de integração política a adoptar dependerá do cenário
que for escolhido para a conclusão do processo de integração.
PS
De acordo com
o Princípio da Subsidiariedade: O grau de integração política a adoptar
deve ser o necessário e o suficiente, de acordo com o princípio da subsidiariedade.
PP
Integração
Prudente: A integração política deve ser a mais prudente possível, na
medida em que não se devem impor modelos artificiais que não correspondam
à realidade.
Carta dos Direitos Fundamentais: Que conteúdo? Que função? Que
força jurídica?
BE
O documento
em preparação é apenas uma versão minimalista e meramente jurídica relativa
a direitos individuais de cidadania. O BE sugere uma versão extensa,
sobre as diferentes gerações de direitos.
PCP
O PCP concorda com a inscrição
nos Tratados de direitos fundamentais inovadores e vastos. Porém, receia
que a Carta se inscreva numa lógica federalizadora e que se torne uma
expressão clara e definitiva na adopção da UE de uma Constituição e,
no limite, da constituição de um novo Estado, rumo a que claramente se
opõe.
PSD
Embora tendo uma atitude
de abertura quanto à Carta, o PSD tem dúvidas quanto à sua utilidade
e quanto ao seu desfecho.
PS
A Carta deverá
ter uma função eminentemente política de "constitucionalizar" a
União, isto é, de lhe dar uma legitimidade ético-política, ao mesmo tempo
que reforça a tutela dos direitos fundamentais já decorrente do Tratado,
depois de Maastricht e Amesterdão. Deve, por isso, ser incluída no Tratado,
sob pena de se tornar numa mera declaração de princípios.
PP
Independentemente
de o PP concordar com os objectivos e com o conteúdo final do documento,
considera que não é através da criação de entidades jurídicas que se
resolve o problema de fomentar a consciência de uma cidadania europeia.
"O modelo que funcionou na Comunidade Europeia, depois
na União Europeia foi um modelo assente essencialmente numa Comunidade
das Nações, que se traduz através do modelo intergovernamental. Esse
modelo tem vantagens e inconvenientes, como todos eles, mas é aquele
que do meu ponto de vista melhor corresponde à história das Nações
Europeias e à própria identidade das Nações Europeias; é uma aliança
de nações livres e independentes destinada a assegurar um espaço de
paz e prosperidade para a Europa. Isto funciona.
Eu estou contente com a Europa que tenho, temo-me da Europa
que estou a deixar de ter, e preocupo-me com a que vou ter." José
Pacheco Pereira, Deputado Europeu pelo PSD, Vice-Presidente do Parlamento
Europeu
Topo 
Reforma das Instituições
O Problema da Representatividade
BE
Não é
favorável a uma Constituição Europeia nesta fase. Os procedimentos democráticos
devem ser a regra e deve haver uma clara separação entre os poderes executivo,
legislativo e judicial, assim como maior participação dos parlamentos
nacionais e dos cidadãos.
PCP
A questão da representatividade
não pode nem deve ser centrada em bases demográficas ou/e populacionais.
Deve continuar a ser assegurada pela representação essencialmente individual
que decorre da sua construção intergovernamental. Deve, no entanto, proceder-se
a pequenos reajustamentos institucionais que não incluem uma Constituição
Europeia ou um Governo europeu.
PSD
Devido ao Alargamento é
conveniente rever-se o modo de funcionamento das instituições conferindo
maior agilidade ao processo decisório, tornando-o mais transparente e
mais célere para que os cidadãos se aproximem da construção europeia.
Devem também reduzir-se ao estritamente indispensável as situações de
decisão por unanimidade.
PS
O problema da
representatividade pode ser ultrapassado através de uma evolução para
duas câmaras.
PP
Face ao alargamento
é necessário proceder a algumas alterações. Mas o âmbito da reforma deve
ser o mais restrito possível. Desde logo, o PP opõe-se a um Governo Europeu
e a uma Constituição Europeia.
Alterações Propostas
BE
Embora
admitindo o aumento dos poderes do Parlamento Europeu (não excluindo
a possibilidade de eleição do presidente da Comissão], devem também
passar a existir instâncias de consulta popular alargadas à escala europeia,
assim como a ratificação por parte dos parlamentos nacionais de soluções
em matérias relevantes. Só desta forma se reforça a democracia e se coloca
esta mais próxima dos cidadãos.
PCP
O Parlamento Europeu deve
ter uma maior capacidade de fiscalização administrativa e política.
Pode até haver uma certa dependência política da opinião do Parlamento
Europeu, mas sem que a génese da constituição da Comissão seja alterada
e sem que a iniciativa legislativa, na parte ou no todo, seja transferida
para o Parlamento Europeu, onde a representação nacional tendencialmente
igualitária não é assegurada. A Comissão deve manter a sua composição
feita na base da indicação pessoal dos diferentes e de todos os governos
dos Estados-Membros. A Comunidade Europeia deve também manter em sua
sede a capacidade actual de iniciativa legislativa, a ratificar, no
fundamental, por decisão final no Conselho Europeu.
PSD
Deve verificar-se o reforço
da cooperação entre o Parlamento Europeu e os parlamentos nacionais.
Ao nível da Comissão deve garantir-se um Comissário por país porque é
importante que cada Estado tenha a sua voz representada. No Conselho
deve proceder-se a uma reponderação dos votos ao mesmo tempo que se deve
manter o sistema da presidência rotativa.
PS
Parlamento
Europeu deverá evoluir para duas câmaras: à representação proporcional
do cidadão deverá corresponder uma Câmara Alta composta ou por representantes
dos parlamentos nacionais ou por senadores eleitos directamente. Este
mecanismo só será aplicado na legislação comunitária. A Comissão deve
recuperar o seu papel de guardiã dos Tratados, ou seja, assumir o impulso
político com vista à defesa do interesse comum. No caso de se limitar
o número de Comissários, o sistema deve ser rigorosamente rotativo, sem
membros permanentes. Se se optar por um Comissário por pais, não pode
haver qualquer tipo de hierarquia. O Conselho é a instituição onde se
devem centralizar os poderes executivos e de governo. O Conselho Europeu
deve ser o centro político da União, não se cingindo à coordenação das
formações especializadas do Conselho.
PP
Ao nível do
Parlamento Europeu, o PP rejeita todas as propostas no sentido da redução
do número de deputados de Portugal. Na Comissão deve verificar-se uma
diminuição dos seus poderes acompanhada da lógica de um Comissário por
pais. Devem também ser atribuídos maiores poderes ao Conselho ao mesmo
tempo que se deve manter o sistema da presidência rotativa.
"Ao nível do Parlamento, deve encetar-se uma reforma bicamaral
que introduza o Senado das Nações, onde se traduza devidamente a nível
parlamentar o princípio da paridade dos Estados-Membros independentemente
da respectiva dimensão (quatro senadores por país)." José
Ribeiro e Castro, Deputado Europeu pelo PP
União Económica e Monetária
Grandes Desafios Económicos para a Europa depois do Euro e Políticas
a Desenvolver
BE
Política
económica comum
Capacidade de endividamento para lançar programas de obras públicas
Redução do horário de trabalho para as trinta e cinco horas semanais
Política fiscal comum
Estratégia da UE para as questões da sociedade de informação
Papel dos Estados no desenvolvimento dos sectores de ponta decisivos
para os próximos embates económicos
PCP
Controlo
efectivo do Banco Central
Alteração do Pacto de Estabilidade para aproximar, por cima, a qualidade
de vida dos Povos Combate ao desemprego e a criação de emprego com direitos
PSD
Política económica
Política orçamental comunitária
Harmonização fiscal
PS
Coordenação
das políticas económicas, emprego e inovação
PP
Desenvolvimento
de políticas no sentido de dotar a economia da UE de maior competitividade
Papel do Banco Central Europeu na Construção Europeia
BE
O Banco
Central Europeu (BCE) deve estar sujeito ao controlo democrático. Os
seus estatutos devem ser revistos de modo a que a obrigação da criação
de emprego passe a vigorar na política monetária e o modo de eleição
da sua administração deve ser alterado. Os seus objectivos devem ser
a estabilidade dos preços, o desenvolvimento económico para o emprego
e a sustentabilidade.
PCP
Deve existir uma dependência
do BCE em relação ao poder político (Conselho] de modo a tornar mais
efectivo o controlo através de decisões e de orientações de política
monetária resultantes de discussões e orientações políticas tomadas no
local onde está representado o poder político dos Estados-Membros.
PSD
Tem que ter legitimidade
política, ou seja, tem que responder politicamente perante o Parlamento
Europeu.
PS
Deve ser um
BCE independente das directivas do poder político. Devem ser reforçados
os mecanismos de "accountability" sem perda de independência
da instituição. Deve ainda existir uma autoridade legitimada que defina
as orientações macro-económicas vinculativas e que tenha poder de as
avaliar e aferir a sua aplicação de modo a garantir a coerência entre
a política económica e a política monetária.
PP
O BCE deve ter
uma independência efectiva mas deve reservar-se aos bancos centrais
nacionais o importante papel de reguladores das condições prevalecentes
nos mercados cambiais, monetário e de crédito. Espera-se também rigor,
um controlo grande sobre o cumprimento orçamental e uma ajuda em termos
da competitividade europeia.
Europa Social e Modelo Social Europeu
BE A UE deve
afirmar o Modelo Social Europeu como a chave para uma nova competitividade.
No entanto, aquilo que se verifica é a cedência da Europa à lógica americana
de precarização do trabalho e de abate das despesas sociais.
PCP
Nos planos social e ambiental
faz sentido uma tendência mais harmonizadora, uma vez que são áreas que
afectam o dia-a-dia dos cidadãos. Nos planos económico e social é necessária
uma ruptura com as orientações neoliberais, uma renegociação profunda
do Pacto de Estabilidade, a criação de um instrumento financeiro orçamental,
o reforço do orçamento comunitário, o termo da política de privatizações,
o reforço do sector público e a reorientação de algumas políticas sectoriais
comuns e comunitárias.
PSD O Modelo Social Europeu
corresponde a uma das maiores realizações da construção europeia. Falta
agora combater o desemprego e investir na formação e nas tecnologias.
PS
O Modelo Social Europeu
deve ser modernizado, investindo nas pessoas e combatendo a exclusão
social. Deve também ser fixado um objectivo para o pleno emprego na Europa
numa nova sociedade emergente, mais adaptada às escolhas pessoais das
mulheres e dos homens.
PP
Não é sustentável
para a competitividade da UE vingar numa realidade internacional com
modelos tão desiguais. É, por isso, necessário fazer algumas cedências,
nomeadamente ao nível da flexibilidade (horário de trabalho), sob pena
de as indústrias europeias deixarem de ser competitivas.
"O Banco Central Europeu desempenha o seu papel no âmbito
da política monetária da União Europeia. Neste momento não vejo necessidade
de alteração. Considero é que as suas políticas devem ser enquadradas
na política económica da União Europeia. O deficit está ao
nível da política económica e não no Banco Central." António
José Seguro, Deputado Europeu pelo PS
"O que deveria ser o grande desafio da Europa e que deveria mesmo
ter antecedido o próprio Euro é o desafio da coesão económica e social.
Esta Europa não faz sentido se não for para aproximar níveis de vida e
níveis de desenvolvimento." Joaquim Miranda, Deputado Europeu
pelo PCP
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