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- JANUS 2007 -



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Ahmadou Bamba Mbacke, o fundador da mouridiyya

Eduardo Costa Dias *

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Ahmadou Bamba Mbacke, fundador, nos finais do século XIX, da confraria dos mourides (“os que procuram Deus”), nasceu em 1850, na localidade de Mbacke-Baol, e faleceu, em 1927, na cidade de Touba, sede da mouridiyya desde 1926 e onde se encontra o seu mausoléu.

Filho de Mouamar Antasali Mbacke (c.1820-1883), qâdi (juiz muçulmano ) do Cayor e próximo dos damel (soberanos) do Baol e do Cayor e da aristocracia wolof e de Diarra Bousso, de uma prestigiada família de marabouts , Ahmadou Bamba, depois dos primeiros estudos corânicos junto de familiares no Baol, passou, como era corrente na época nas famílias de letrados, vários anos em importantes centros religiosos da qadriyya , nomeadamente, no de uma família de eruditos muçulmanos de Saint-Louis, os Bu-el Mogada, e em Trarza (Mauritânia), na madrassa dos Siddyya Abyayri, onde o pai tinha estudado e onde, como este, foi iniciado na confraria dos qadri (1).

 

Distanciamento da qadriyya, fundação da mouridiyya, relações com o poder colonial

Tendo-se distanciado nos anos anteriores da proximidade do seu pai com os damel e entrado em conflito com Lat Dior, damel do Cayor, a propósito do destino a dar aos escravos de guerra, regressado a Mbacke-Baol, Ahmadou Bamba, vai criar, em 1886, com alguns discípulos do pai, uma comunidade religiosa que não só rapidamente se distanciará da política de colaboração da qadriyya com a administração colonial, como progressivamente se autonomizará desta.

Esta comunidade, de base wolof (membros da aristocracia, antigos guerreiros, camponeses, descendentes das classes servis, antigos escravos), à semelhança da qadriyya senegalesa na época dirigida por Bou Kounta (c.1850-1914) (2), associará rapidamente à componente religiosa a económica e reunirá, já no inicio dos anos 1890, várias centenas de membros, na sua maioria implicados no cultivo, em grandes extensões, de amendoim.

O proselitismo da confraria e a atitude pouco cooperante do seu líder com a administração colonial farão com que as relações entre Ahmadou Bamba e o poder se deteriorem nos anos seguintes e levem a que este seja, sob a acusação de que os seus ensinamentos prefiguravam a preparação de uma nova jihad e apesar das inúmeras petições em sentido contrário vindas de outros notáveis muçulmanos aliados da França e da partilha de opiniões no seio da administração colonial, sucessivamente deportado para Mayombe, no Gabão (1895-1902), exilado em Trarza (1903-1907) e colocado em residência fixa em Chèyène, nos confins do Jolof de 1907 a 1912 e em Diourbel, de 1912 a 1915.

A situação pessoal de Ahmadou Bamba, apesar das relações de cooperação dos seus principais lugares-tenentes para com a administração colonial e do reconhecimento oficioso por parte desta da grande contribuição da mouridiyya para o “esforço produtivo da colónia”, só se alterará quando este e outros marabouts da confraria ordenaram o alistamento dos taalibe na força expedicionária senegalesa que combateu na Iª Guerra Mundial e fizeram importantes contribuições monetárias para um fundo destinado a financiar a guerra contra a Alemanha, o chamado fundo de socorro nacional. Nos anos que se seguiram até à sua morte, não só a confraria recebeu novas e importantes extensões de terreno para cultivo de amendoim e foi autorizada, em 1926, a transferir a sua sede para Touba e a iniciar a construção da Grande Mesquita, como ainda os funcionários coloniais passaram a ser convidados de honra nas cerimónias da confraria e Ahmadou Bamba, nomeado em 1916 membro do Conselho Consultivo dos Assuntos Muçulmanos para a África Ocidental Francesa, condecorado com a Légion d'Honneur .

 

Mouridiyya, uma confraria construída à volta de Ahmadou Bamba

Os alicerces programático-religiosos da confraria, que em boa parte pouco diferem dos da qadriyya , datam do início dos anos 1890 e dos anos de exílio de Ahmadou Bamba no Gabão e estão sobretudo sistematizados num conjunto de odes de louvor a Maomé e de glorificação da piedade, da obediência, da disciplina e do trabalho.

Considerando-se ele próprio como um Kahadim Rasul Allah (“servidor do enviado de Deus”) e afirmando ter tido, na mesma idade em que Maomé recebeu as primeiras revelações, a visão do anjo Gabriel que lhe ordenou a construção de uma nova via (confraria) e recebido do próprio Maomé o wird da confraria, estes poemas são hoje em dia recitados quotidianamente pelos membros da confraria e constituem, com a efabulação da sua vida, o núcleo central da doutrina da mouridiyya .

De facto, não só parte considerável dos princípios religiosos da confraria se baseiam na glorificação do trabalho, no preceito da obediência absoluta do taalib ao seu marabout ( jebulu ) e na transmissão pessoal de conhecimento do marabout ao taalib ( tarqiyya ), como ainda grande parte da encenação ritual da confraria se centra na comemoração e exaltação de acontecimentos da vida de Ahmadou Bamba: a peregrinação anual ao mausoléu em Touba ( Magal ), a maior cerimónia da confraria, realiza-se no aniversário do seu regresso do exílio no Gabão; a visão do anjo Gabriel foi decretada como o acontecimento fundador da confraria; o local onde se ergue Touba como o sítio onde recebeu a visita de Gabriel; o seu mausoléu situa-se no interior da Grande Mesquita de Touba e está no centro geográfico da cidade; no areópago de profetas e de santos da hagiografia mouride , ocupa, logo abaixo de Maomé, o primeiro lugar.

Ahmadou Bamba Mbacke, na apologética mouride , não só é considerado como herdeiro de Maomé, servidor do enviado de Deus e mesmo enviado de Deus, como ainda fundador de uma “era nova na história do islão e do homem negro”.

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1 - Segundo alguns autores, Ahmadou Bamba como outros co-fundadores da mouridiyya , para além de iniciados na qadriyya , também o foram na tijâniyya . Na época, era frequente, com a justificação de que assim podiam adquirir “mais conhecimento”, importantes marabouts serem iniciados sucessivamente em várias confrarias.
2 - Bou Kounta, precursor da utilização dos taalibe no cultivo de grandes extensões de amendoim e comerciante com importantes interesses nas praças de Dacar e de Saint-Louis, é geralmente considerado como um dos pioneiros da inserção das confrarias na economia colonial.


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* Eduardo Costa Dias

Doutor em Antropologia Social e coordenador dos Programas de Mestrado e de Doutoramento em Estudos Africanos do ISCTE. Tem desenvolvido trabalhos sobre as relações entre os dignitários muçulmanos e o Estado e as formas de transmissão do saber religioso nas sociedades islamizadas da Senegâmbia (Gâmbia, Guiné-Bissau, Senegal).

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